INFÂNCIA: A CHEGADA AO “SONHO AMERICANO”
Seung-Hui Cho
Nasceu em 18 de janeiro de 1984, em Seul, Coreia do Sul. Sua infância foi inicialmente comum, até que, em 1992, aos 8 anos de idade, imigrou com os pais e a irmã mais velha para os Estados Unidos. A família buscava uma vida melhor e se estabeleceu no estado da Virgínia, trabalhando com esforço em empregos humildes — o pai como lavador e a mãe em uma lavanderia.
A adaptação de Cho à cultura americana, no entanto, foi extremamente difícil. Ele apresentava desde cedo um comportamento profundamente retraído, e sua fala era quase inexistente. Mais tarde, foi diagnosticado com mutismo seletivo — um transtorno de ansiedade severo que o impedia de falar em situações sociais — além de fobia social aguda. Mesmo em sala de aula, raramente falava com colegas ou professores.
Na escola, ele se tornou um alvo fácil. Colegas zombavam de sua timidez extrema, sotaque coreano, maneira esquisita de andar e sua fala inaudível. Era chamado de “mute boy” (garoto mudo) e vítima de bullying constante. O desprezo que recebia era reforçado por sua aparência frágil e introspectiva. O próprio Cho escreveria mais tarde que se sentia como um “nada”, invisível para todos.
OS SINAIS DE ALGO ERRADO
Durante o ensino médio, apesar do comportamento introvertido, Cho demonstrava um certo brilho intelectual, especialmente na escrita. Era obcecado por histórias sombrias, temas de vingança e violência. Ainda assim, era considerado inofensivo. Segundo ex-professores, nunca sorriu, nunca teve amigos, e evitava qualquer tipo de contato visual.
Após se formar no ensino médio, ingressou na Virginia Tech, em 2003, como estudante de Inglês. Na universidade, os sinais de distúrbio mental se tornaram mais visíveis — e mais perigosos.
ALERTAS IGNORADOS
Vários professores e colegas ficaram assustados com os textos perturbadores que Cho escrevia nas aulas. Suas peças e roteiros eram repletos de cenas de homicídio, estupro, vingança e ódio extremo. Professores chegaram a alertar a direção da universidade, e um deles pediu que ele fosse retirado da turma. Outros estudantes também relatavam comportamento ameaçador e paranoico.
Em 2005, dois anos antes do massacre, Cho foi denunciado por assediar duas alunas, inclusive invadindo o quarto de uma delas. Como resposta, foi submetido a uma avaliação psiquiátrica e considerado “um perigo para si mesmo”. Um juiz ordenou que recebesse tratamento ambulatorial obrigatório.
Entretanto, a universidade nunca foi notificada formalmente sobre esse histórico, e Cho nunca seguiu o tratamento de forma adequada. O resultado foi um jovem cada vez mais isolado, sombrio e cheio de raiva — um vulcão prestes a entrar em erupção.
O PLANO PARA A VINGANÇA
Nos meses que antecederam o ataque, Seung-Hui Cho começou a planejar o massacre meticulosamente:
Comprou duas armas legalmente, usando identidades falsas e aproveitando falhas no sistema de checagem de antecedentes:
Uma Glock 19 9mm
Uma Walther P22 calibre .22
Adquiriu munição pela internet, colecionou cartuchos, carregadores e até colete.
Gravou dezenas de vídeos e escreveu um manifesto raivoso, direcionado à mídia e à sociedade americana.
Passava horas treinando com as armas e posando para fotos, em estilo militar, que seriam posteriormente divulgadas.
Em seu manifesto, comparava-se a Jesus Cristo, falava como mártir, e declarava guerra aos “ricos mimados”, aos populares e ao “sistema hipócrita”.
Trechos de seus vídeos incluíam frases como:
“Vocês tiveram cem bilhões de chances e mais, mas deram as costas.”
“Vocês me forçaram a fazer isso.”
O DIA DO MASSACRE – 16 DE ABRIL DE 2007
A segunda-feira começou como qualquer outra no campus da Virginia Tech, em Blacksburg, Virgínia. Era o início da primavera, os estudantes seguiam para suas aulas, alguns de ressaca do fim de semana, outros preparando provas. Ninguém imaginava que nas próximas horas o campus se transformaria em um campo de guerra.
O PRIMEIRO ATAQUE: DORMITÓRIO WEST AMBLER JOHNSTON (7h15)
Seung-Hui Cho acordou cedo, se preparou com calma, vestiu uma jaqueta preta, calça jeans e colocou as armas escondidas sob a roupa. Entrou no West Ambler Johnston Hall, um dormitório estudantil feminino, com acesso liberado a estudantes da universidade.
Ele foi direto ao quarto 4040, onde Emily Hilscher, de 18 anos, recém-chegada na universidade, morava. Emily provavelmente conhecia Cho apenas de vista, se é que o conhecia. Acredita-se que ele a escolheu por ter uma rotina previsível — ela havia saído para visitar o namorado no fim de semana e retornaria naquela manhã.
Emily foi baleada e morreu no local. Quando o residente assistente Ryan Clark, de 22 anos, tentou ajudar, Cho atirou nele também, matando-o.
Cho então fugiu do prédio, deixando para trás dois corpos e um campus confuso, mas ainda sem pânico.
PRIMEIRA INVESTIGAÇÃO E FALHA NA COMUNICAÇÃO (7h30 - 8h30)
A polícia da universidade foi chamada. No entanto, não havia testemunhas diretas, e nenhuma arma foi encontrada no local. A cena parecia um “crime isolado” — talvez passional. As autoridades supuseram que o autor havia deixado o campus.
A reitoria não cancelou as aulas, nem alertou os alunos. O sistema de e-mail interno da universidade só seria acionado duas horas depois.
Enquanto isso, Cho retornou calmamente ao seu dormitório, no Edifício Harper Hall. Lá, trocou de roupa, recarregou munições, limpou a jaqueta ensanguentada e organizou seu plano final. Ele apagou o disco rígido do computador e removeu o cartão de memória do celular, tentando não deixar rastros digitais.
ENVIO DO MANIFESTO À NBC (8H45)
Cho foi até uma agência dos Correios dentro do campus. Lá, com tranquilidade, despachou um pacote de 43 itens para a sede da NBC News em Nova York.
O conteúdo:
27 vídeos em que se gravava falando de vingança, ódio e revolta
43 fotografias, muitas em que aparecia armado, com expressão de desprezo e orgulho
Um manifesto de 1800 palavras, onde descrevia sua visão de mundo e sua raiva contra os "ricos", os populares e a humanidade
Após isso, ele se dirigiu a pé ao prédio Norris Hall, onde começaria a fase mais letal do massacre.
ATAQUE EM MASSA: PRÉDIOS NORRIS HALL (9h40)
Cho chegou ao edifício acadêmico Norris Hall, lar de salas de aula dos departamentos de engenharia e ciências. Ele trancou com correntes as portas principais por dentro, e até colocou placas avisando "fechado para manutenção" para confundir quem tentasse entrar.
Com duas pistolas (Glock 19 e Walther P22), mais de 400 munições e vários carregadores, ele começou a invadir salas de aula uma a uma.
Execuções metódicas
Sala 206: Quando os primeiros tiros soaram, o professor G.V. Loganathan foi o primeiro a cair. Estava explicando um exercício de engenharia quando foi atingido na cabeça. Vários alunos foram mortos antes de conseguirem reagir.
Sala 207: O professor Liviu Librescu, de 76 anos, bloqueou a porta com o próprio corpo para dar tempo para os alunos escaparem pela janela. Foi atingido por cinco tiros e morreu como herói. Muitos estudantes daquela sala sobreviveram por causa dele.
Sala 211: Cho atirou em cada estudante, um por um. Alguns tentaram se esconder debaixo de mesas, mas ele se abaixava para garantir que os atingiria.
Quando alguns fingiram estar mortos, ele esperou em silêncio, observando o ambiente, e depois atirou novamente em corpos que se moveram minimamente.
Sala 204: O professor Kevin Granata, ao ouvir os tiros, saiu de sua sala segura e foi até o corredor para ajudar. Foi baleado enquanto tentava proteger outros alunos. Seus esforços salvaram vidas, mas ele não sobreviveu.
Alunos desesperados usam mesas para barricar portas, pulam de janelas do segundo andar e se escondem atrás de armários.
Cho atirava com frieza e precisão, mirando nas cabeças, recarregando rapidamente, sem demonstrar emoção. Em vários casos, atirou novamente em feridos para garantir que estivessem mortos.
CHEGADA DA POLÍCIA (9h50)
Policiais táticos arrombaram uma das entradas com explosivos. O som das explosões ecoa pelo prédio. Cho percebe que está cercado.
Sem tentar fugir ou resistir, ele se dirige a uma sala vazia e comete suicídio com um tiro na cabeça, usando sua pistola Glock.
No chão, ao lado do corpo, estão dezenas de cartuchos, carregadores, uma faca e os dois revólveres. Ele também carregava uma lista com os nomes de algumas vítimas em potencial e itens pessoais destruídos para não serem rastreados.
CAMPUS EM CHOQUE (10h - 11h)
Quando o massacre termina, a dimensão da tragédia começa a se revelar. O número de mortos sobe rapidamente. Equipes de emergência atuam em corredores cobertos de sangue, corpos, gritos e pânico.
As aulas são suspensas. O campus é evacuado. Pais e amigos desesperados tentam se comunicar com os estudantes. A mídia já estava posicionada no local desde os primeiros disparos.
NBC RECEBE O PACOTE DE CHO (15h)
Enquanto o mundo tenta entender o que aconteceu, a sede da NBC em Nova York recebe o pacote enviado por Cho. O conteúdo — com vídeos do atirador explicando suas motivações — é entregue ao FBI.
Em um dos vídeos, Cho diz:
“Vocês podiam ter me impedido. Podiam ter me salvado. Mas vocês escolheram derramar meu sangue.”
O MANIFESTO DA FÚRIA
Após o massacre, o material enviado à NBC chegou à imprensa: vídeos, fotos e textos que mostravam um jovem completamente desconectado da realidade, cheio de ódio existencial e delírios de grandeza.
Ele se via como um redentor. Nos vídeos, dizia frases como:
“Vocês me deixaram sem escolha.”
“Vocês plantaram as sementes do meu ódio.”
“Columbine não foi nada perto do que está por vir.”
As imagens mostravam Cho posando com armas, facas, coletes táticos, com um olhar vazio e expressão quase robótica.
AS VÍTIMAS
No total, 32 pessoas foram assassinadas, entre elas:
Estudantes americanos e estrangeiros
Professores de diversas nacionalidades, inclusive um sobrevivente do Holocausto, Liviu Librescu, que se sacrificou para proteger seus alunos
Outras 23 pessoas ficaram feridas, algumas com lesões graves e permanentes.
PERFIL PSIQUIÁTRICO
Análises posteriores revelaram que Cho possivelmente sofria de:
Transtorno esquizotípico de personalidade
Depressão severa com traços paranoides
Distúrbios psicóticos com ideias persecutórias
Apesar disso, nunca recebeu o acompanhamento médico necessário. As falhas nos sistemas de saúde, educação e segurança permitiram que sua condição se deteriorasse até o ponto de ruptura.
FALHAS SISTÊMICAS E CONSEQUÊNCIAS
O massacre expôs uma série de falhas:
A polícia universitária não agiu com a devida urgência após os primeiros disparos.
O sistema de saúde mental não conseguiu intervir efetivamente.
A lei de armas permitiu que um jovem com histórico psiquiátrico comprasse armamento com facilidade.
Após o massacre, leis federais foram reformuladas para melhorar o compartilhamento de informações sobre pacientes mentais com o sistema de verificação de antecedentes de compras de armas.
O IMPACTO EMOCIONAL NOS SOBREVIVENTES
O massacre de Virginia Tech não terminou com a morte de Seung-Hui Cho. As cicatrizes deixadas em quem sobreviveu ao ataque ainda perduram — muitas delas invisíveis, profundas, silenciosas. Para os sobreviventes, professores, familiares e socorristas, aquele 16 de abril de 2007 nunca acabou realmente.
Trauma psicológico profundo
Muitos dos estudantes que escaparam relataram transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), depressão severa, crises de pânico e fobias sociais.
Vários abandonaram a universidade, sem conseguir pisar novamente no campus.
Alguns passaram anos sem conseguir entrar em uma sala de aula ou ouvir o som de uma porta batendo — os gatilhos psicológicos eram frequentes.
A dor da rotina destruída
Estudantes que estavam a poucos metros das salas atacadas relataram culpa por ter sobrevivido, uma sensação comum em tragédias em massa chamada de "culpa do sobrevivente". Eles convivem com perguntas do tipo:
“Por que eu vivi e meu colega não?”
“E se eu tivesse avisado antes?”
“Por que não fiz mais?”
Vítimas silenciadas, sobreviventes que falam
Alguns sobreviventes decidiram transformar sua dor em ação. Destacam-se:
Colin Goddard – Sobreviveu após ser baleado quatro vezes. Tornou-se ativista pelo controle de armas, participou de documentários e chegou a se infiltrar em feiras de armas para mostrar como era fácil adquirir armamento nos EUA.
Kristina Anderson – Baleada três vezes, criou a Koshka Foundation, uma ONG dedicada à educação sobre resposta a tiroteios e segurança em campi universitários.
Muitos outros escolheram o silêncio. Para eles, falar sobre o dia ainda é inviável emocionalmente.
MUDANÇAS NA LEI PÓS-VIRGINIA TECH
O massacre expôs brechas graves no sistema americano — principalmente em relação a:
Controle de armas
Compartilhamento de informações sobre saúde mental
Respostas emergenciais em universidades
Falha legal exposta
Cho comprou armas legalmente, mesmo tendo sido considerado “um risco para si mesmo” por um juiz. Como seu tratamento psiquiátrico foi ambulatorial e não resultou em internação formal, o sistema de checagem de antecedentes (NICS) não foi notificado.
Essa brecha legal permitiu que ele passasse nos testes de elegibilidade para compra de armamento — duas vezes.
Mudanças legislativas
Após pressão nacional, o Congresso dos EUA aprovou, em 2007:
The NICS Improvement Amendments Act
Facilitou o reporte de pacientes com histórico de doença mental grave para o sistema de verificação de armas (NICS).
Incentivou estados a digitalizar registros judiciais e psiquiátricos.
Proporcionou subsídios financeiros para estados que compartilhassem dados de forma eficaz.
Apesar disso, nenhuma restrição ampla à venda de armas semiautomáticas foi aprovada após o massacre. O lobby armamentista (como a NRA) continuou forte.
Reformas em universidades
Virginia Tech e outras instituições adotaram protocolos como:
Alertas de emergência por SMS, e-mail e alto-falantes em tempo real.
Treinamentos para alunos e professores sobre como agir em tiroteios ativos.
Criação de equipes de avaliação de ameaças (Threat Assessment Teams) para identificar alunos com comportamentos suspeitos.
COMPARAÇÕES: VIRGINIA TECH, COLUMBINE E OUTROS MASSACRES ESCOLARES
O massacre de Virginia Tech marcou um ponto de ruptura na percepção dos ataques escolares, mas ele se conecta — em diferentes aspectos — a tragédias anteriores e posteriores.
Columbine (1999)
Autores: Eric Harris e Dylan Klebold (17 e 18 anos)
Local: Columbine High School, Colorado
Mortos: 13 vítimas + os dois atiradores
Motivação: ódio à sociedade, desejo de notoriedade e vingança contra populares
Semelhanças com Cho:
Ódio aos colegas e desprezo pelas "classes populares"
Manifestos escritos e gravados
Planejamento detalhado com meses de antecedência
Diferenças:
Cho agiu sozinho, em silêncio absoluto.
Columbine foi mais performático; os autores se filmavam com armas, zombavam das vítimas em vídeos.
Sandy Hook (2012)
Autor: Adam Lanza, 20 anos
Mortos: 26 pessoas (20 crianças de 6-7 anos + 6 funcionárias da escola)
Local: Sandy Hook Elementary School, Connecticut
Similaridade: histórico psiquiátrico, isolamento, planejamento e acesso fácil a armamento
Diferença: Sandy Hook foi ainda mais traumático por se tratar de uma escola primária, com alvos extremamente jovens.
Uvalde, Texas (2022)
Autor: Salvador Ramos, 18 anos
Mortos: 21 (19 crianças + 2 professores)
Destacou falhas graves na resposta policial, que demorou mais de 1 hora para intervir, enquanto o atirador permanecia armado dentro de uma sala de aula.
UMA LIÇÃO TRÁGICA
O massacre de Virginia Tech não foi apenas o ato de um assassino, mas o resultado de anos de negligência, exclusão e falhas institucionais. Seung-Hui Cho não nasceu um monstro — ele se tornou um, alimentado pelo abandono e pela invisibilidade.
Apesar de todos os alertas, sua dor permaneceu invisível até se transformar em violência irreparável.
UM DIA QUE MUDOU A HISTÓRIA
O massacre de Virginia Tech é um dos mais emblemáticos da história moderna, não apenas pela brutalidade, mas por expor as falhas em diversas estruturas: educação, saúde mental, segurança e controle de armas.
O dia 16 de abril de 2007 não foi apenas o dia em que Seung-Hui Cho matou dezenas de pessoas. Foi o dia em que um silêncio cultivado por anos explodiu em fúria.









Postar um comentário